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sábado, 12 de março de 2011

tudo leva


Uma onda leva tudo
leva gente
leva casas
leva planos
o vento também leva
leva as folhas
leva um jardim inteiro
leva sonhos
a chuva leva muito
leva telhados
leva asfalto
leva cães desesperados
parece que antes a onda só era leve
parece que o vento só era fresco
parece que a chuva só molhava
será que tudo mudou?
ou foi a tv internet etc e tal
que deixaram portas e janelas abertas
e a tempestade agora nos chega
tão concreta?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Damas


Jogo "damas" com minha filha
na mesa da cozinha comendo geleia de morango
silêncio pensando
e de repente estamos rindo das bobagens
e perder é engraçado
porque entre nós não há disputa
Esse jogo tão simples e gostoso entre nós
era o mesmo
há tanto anos, eu e minha mãe jogávamos
o olhar era o mesmo
o silêncio entre as jogadas
o riso entrecortando a seriedade
tudo é tão igual
imito minha mãe quando olho minha filha
imito minha mãe quando finjo a seriedade do jogo
e dou uma ajuda pra minha filha ganhar
imito minha mãe quando sinto tanto amor
que dói no peito
imito a minha mãe o dia inteiro
pra ser mãe e mulher
imito minha mãe pra ser gente
pra ser grande
forte
bela.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

...

eu tenho um amor escondido proibido para menores e pessoas de alta moral
eu amo de forma estranha pecadora violenta e muito muito intencional
às vezes esse amor se acalma, peço perdão aos céus e tento ser racional
mas basta ver um filme
ouvir uma canção
ficar sozinha por alguns minutos
e lá estou eu apaixonada etc e tal
eu tenho um amor esquisito
mas é bem real

terça-feira, 8 de setembro de 2009

um grito

hoje estou sozinha em casa
faz tempo que isso não acontece
faz tempo que deixo de ser eu para ser os outros
e que vontade rasgada de ser eu a egoísta maior
e que vontade de gritar que eu não tenho consciência
não me peçam bondade
eu sou repetitiva
eu sou implicante
eu não pedi companhia
eu não sei ser sem encher a cara de calmantes
e assim eu posso dizer obrigada, de nada, imagina, eu entendo
porque na real eu não entendo nada dessa porra de vida
porque na real eu durmo cedo pra não me ver de perto por muito tempo
tão doloroso tornou me olhar no meio de tudo
eu não posso ter muita gente e muita coisa
eu preciso de silêncio e de muito pouco
eu não quero presentes e festas
preciso de vazio e solidão
eu me quero de novo
eu me quero de novo
eu não sou boa
eu sou uma filha da puta egoísta narcisista ignorante
me deixa ser livre
me deixa doer
me deixa ter orgasmos
me deixa
me deixa
me deixa
estou presa dentro de um grito

quarta-feira, 1 de julho de 2009

podemos passar o dia de testas grudadas
podemos olhar borboletas até ficar tontos
podemos tomar um sorvete no calor ou um capuccino no frio
no mesmo cobertor ou cobertos de amor
podemos dormir tranquilos, que tudo está bem
podemos nos abraçar diariamente
podemos dar risada de nós mesmos
podemos segurar a ponta do dedo, eu o seu, você o meu
podemos pensar em Deus sem culpa
podemos sair correndo, podemos nos socorrer
podemos
nós só não podemos acreditar

domingo, 26 de abril de 2009

Bom dia vó Maria


hoje amanheceu ensolarado
um friozinho outonal cheio de sol
e foi nesta manhã tão clara
que minha avó se levantou
disse bom dia à vida
e se foi
foi embora discretamente, discretamente viveu
foi embora sem dar trabalho, e sem dar trabalho viveu
foi embora forte e valente, tão forte e valente viveu
fechou os olhos verdes para este mundo

descansa vó Maria
não sei por que choro
morávamos tão longe
e agora tão perto estamos
que chego a sentir-te ao meu lado
enquanto escrevo, você sorri para mim
não sei por que choro
se já estás tão cheia de luz.

homenagem a Maria Conceição Lopes (Diamantina - MG)
* 26/10/1911 + 26/04/2009.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

passei o dia todo lendo um livro
passei o dia todo em silêncio
e quando fui me comunicar com pessoas reais
foi trágico

prefiro os livros

terça-feira, 31 de março de 2009

minha cabeça

ando triste
dormindo muito
fugindo de mim e de todos
dores de cabeça absurdas
dispara o coração quando toca o telefone e o microondas
medo das pessoas
irritada
falta chocolate
saudade da minha mãe
saudade de ser pequena
menina
com pai
menina
sem dor de cabeça

sexta-feira, 6 de março de 2009

amor borboletas e segredos


eu acreditei no que me disseram
sobre o amor
as borboletas
e os segredos

eu fiz cara de choro
quando não me amaram
quando as borboletas caíram
e os segredos contados

eu me desesperei
quando partiu
você
céu sem borboletas
amor sem segredo
amor sem amado

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

E o Carnaval não me levou...


O Carnaval já passou, mas não me levou, eu estava tão longe de todo o batuque e colorido, mas não me senti infeliz por isso. O batuque esconde o barulho dos assaltos, do tráfico, das crianças que choram de fome de tudo. O colorido disfarça a chuva que leva a casa e a geladeira, deixando famílias sem nada. O Carnaval não me leva mais, não sei esquecer, não sei mais fingir. Não se trata de ser amarga, pelo contrário, sou feliz, mas não quero mais nehuma forma de exagero que me faça fugir. Não preciso de vendas, eu quero ver o velho que pede esmolas numa cadeira de rodas, não era para estar alí, fosse este uma país mais justo. Não preciso viajar de avião, eu quero passar de ônibus pelas favelas, porque alí está o real. Eu não uso mais a desculpa de que o animal foi feito pra comer, porque sei que ele também tem medo da morte. O Carnaval passou, mas não me levou, fiquei olhando minha vida real, minhas pessoas, fiquei olhando pra minha mãe, tão boa mãe, tão bom ser humano, fiquei olhando Carlito cozinhar, tão calmo cortando cada legume, interessado em nossa história. Olhei cada um lá de casa, entrei na água com a Sofia, caminhei com meu amor, cuidei dos meus animais, arrumei meus livros na estante. Esse foi o carnaval que passou e não me levou, não fui atrás da folia, fui atrás de mim!

sábado, 31 de janeiro de 2009

chove muito por aqui faz dias


chove tanto
que meu cérebro embolora
fico lenta
e meus pensamentos
são um mau cheiro
feito roupa úmida
guardada em gaveta


mas eis que o sol rompe
e começo a secar os miolos
e me estico feito gato à janela
coloco pra fora os cobertores
me afasto da televisão e dos doces


olho para meu rosto
reflexo no pote de cotonetes
estou envelhecendo, meu Deus
mas o bolor
não mancha mais meus traços

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

sono

onde estão os bons?
onde estão os que esticam braços e nos acolhem as mãos?
onde estão os que dizem: calma tudo acaba bem?
não estão não acaba bem!
onde estão os que prometeram ficar para sempre?
onde foram para sempre longe?
os bons partem
os bons dormem
os bons fogem
estou tão cansada
dormir me acalmaria

dormir de verdade

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

ano novo


outro ano passa
em mim por mim
passam dias apressados
passam gotas poucas
passa um ano
e fogos de artifício
e eu tento reter
o instante, esse mesmo
interessante e passa
e apesar de todo o barulho dos fogos
e das gentes e das champanhes estourando
silêncio em mim
para ver passar mais um ano
e escuto o som dos confetes que caem
e minha fantasia feita de papel
se desfaz com gotas
de suór
sem fantasia de princesa
nua caminho
caminho sozinha
e passa o ano
o vento
o barulho
as crianças passam
e eu, vulto, caminho nua a espera do novo
que venha o novo
que venha cobrir minha pele suór fria fogo de leve

domingo, 21 de dezembro de 2008

Deus

corro aos braços desse Deus que não vejo
não consigo ser como as pessoas e suas fés
mas corro a ele
querendo vê-lo e temendo o encontro
e encontro em simplicidade
sentado sobre uma pedra
pernas cruzadas
perco o medo
porque ele sorri
já me disseram que era sério
mas não é
ele sorri
e tem pena dos que sofrem
porque não era para ser assim
mas nós corremos para tudo o que não era ele
corremos para tanta coisa
e ele não era tanta coisa que faz sofrer
era só um sorriso
sobre uma pedra
e só pedia
para olharmos
olhamos e vimos pouco
e tão grande era o que mostrava
nós não conseguimos ver o grande
somos pequenos
precisamos melhorar nossa visão
e aprender no sorriso Dele.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Nada há

não há flores
nem caixas de chocolates
não há surpresas
nem abraços longos
não há lágrimas
nem festas
não há promessas
nem mãos cortadas
nem sangue misturado
nem almas entrelaçadas
apenas há o que houve
lembrado na carne
houve e nunca mais haverá
não pode ser
não é
e se não é
nada há
e
fim

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

"a vida é uma festa" meu poema clichê

"a vida é uma festa"
metáfora que toda a gente usa
então vou usá-la:
a vida é uma festa lotada
estou me divertindo
mas vem batendo o cansaço
me sento e observo
a todos
e de repente
as pessoas começam a partir
dão um adeus sorridente
ou um adeus cansado e vão
vão embora
a vida é uma festa, e todos partem
estou sentada olhando esta partida
estou sentada e atenta
todos partem
quando chegaram tinham a curiosidade se a festa seria boa
para alguns foi
para outros não
eu sempre fico
eles sempre vão
o salão vazio
as cadeiras sobre as mesas
um homem varre os restos
um outro toca um blues
já tirei meus saltos
o batom já foi na boca de alguém
o lápis escorreu dos olhos
a vida é uma festa
mas a festa acaba!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

o menino das mãos sujas

para Iris
Eu era pequena, menina boba. Em minha escola havia um menino que não lavava as mãos, por nada desse mundo. Nem depois do lanche, em que restos de pão estavam entre seus dedos, e nem depois do xixi, em que um pingo sempre ia parar naquela palma branca e impura. Ele não se importava com isso, vivia tranquilo, com um olhar meio parado. Não era uma má pessoa, mas podia bem lavar aquelas mãos. Acho que era medo de água mesmo. Hidrofobia!
Um dia, eu caminhava tranquila pelo pátio da escola, cheio de moleques correndo e meninas sentadas, conversando sobre o primeiro amor... eu caminhava perdida nas minhas viagens , com um pacote de batatas fritas e um suco delicioso de uva.
E então, naquela tarde, em que nada parecia novo, ele surge, o menino das mãos sujas e em minha direção caminha. Eu fiquei parada, tinha um pouco de medo dele, mas não podia sair correndo, ou ofendê-lo, só porque tinha mãos sujas, eu não poderia ser como os outros, que pisam nos que não podem lavar as mãos, ou os que não lavam os pés, ou os que nem banho tomam, ou os que não escovam seus dentes, eu não poderia ser um desses idiotas, que se julga superior, pelo fato de cheirarem a perfumes, desodorantes, ou pastas de dentes... então me mantive firme e ofereci...sim! lhe ofereci batatas... ele, feliz, educado ou sei lá o quê...aceitou. Enquanto levava as mãos ao meu amado saco de batatas, surge uma amiga no último degrau da escada, e por pena de mim ou de minhas batatas, grita um NÃO!!!!!!! Um não mudo sai de sua garganta, não por mal, mas seria o fim de minhas batatas e ela pensava em proteger aquelas salgadas, deliciosas e crocantes iguarias. Ele se virou feliz e foi embora...ela chegou bem perto, e constatou que ele havia tocado... o que fazer agora? Elas haviam sido tocadas pelo menino das mãos sujas... Olhamos uma para a outra e decidimos continuar a comer juntas o que sobrara... e então fomos andando, a princípio melancólicas, com medo de bactérias e depois uma risada veio gostosa... e fomos pelo pátio...comendo batatas com sal e uma pitada de qualquer coisa que nosso amigo tivesse comido ou mijado naquele dia!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

poema de amor eterno?

ele virá ao meu mundo
lá antes da porta
lá onde a grama é verde
e cheira verde

eu o aceito aqui
pois ele me ama invisível
e eu o amo transparente
no cheiro verde da nossa terra

ele chegou de trem
eu corri pra estação
ele veio sem mala
veio sem identidade
mas nunca precisava
só precisava coragem

corri para os seus olhos
levei um copo de água
levei um bolo de milho
levei a fome que tinha

seus olhos tão benditos
agradeceram a água da fonte
e sentados na nossa grama
comemos o bolo de milho
e rimos da simplicidade
e do canto dos passarinhos

este era o nosso mundo
como poderíamos abandoná-lo?
e decidimos optar pela eternidade
e nos amamos eternamente
e eternamente dormimos abraçados
na grama verde que um dia cobrirá nossos corpos

"quando eu morrer me encontrará por lá, volte para mim"

domingo, 9 de novembro de 2008

Silêncio


fechei meus olhos para espiar
lá dentro
abri a porta, que não rangeu
silêncio
olhei dentro
estava vazio
botei meus pés novamente naquele chão
grama verde
meu corpo descansou
olhos calmos
mãos leves
corpo em repouso
que saudade daquela terra
daquela gente
caminhei por toda parte
busquei vozes conhecidas
silêncio
realmente estava sozinha
mas não estava triste
senti que alguém se aproximava
e antes de ver fui abraçada
conhecia os braços
ficamos ali sentados
o sol morria
não precisávamos de palavras
por isso voltei
pelo silêncio do encontro
pelo silêncio dos teus passos nesse chão
que não existe

e silenciosos caminhamos sempre ao lado

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

prato cheio




eu não como carne
não quero o sangue
rejeito essa morte
essa dor

tu mastigas a carne alheia
tu temperas para esquecer a violência

um animal de olhos assustados morreu
para que te enchas a pança gorda
da carne, da vida, do que pulsava

e agora podre te pertence

bom apetite