sábado, 21 de maio de 2011

Ipê

Hoje saí mais uma vez para caminhar com minha cachorra, por uma hora inteira caminhamos para descansar do dia cheio de compromissos e de pessoas. Eu ouvia música e a Mina curtia o vento na cara.
Acho que nós duas estávamos longe de tudo que passava por nós, era um momento de não ser bem intenso. Fechada em meu agasalho, ia deixando para trás tudo, como se nunca mais fosse voltar, mas a Mina ia marcando o caminho, para que não esquecêssemos. Acho que ela sabia que eu sempre me perdia de propósito. Perder-me é bom, porque me dá uma imensa coragem, mas é perigoso, porque não encontrar o caminho de casa é inquietante. E eu não posso estar inquieta. O outono em Botucatu já é bem frio e seu vento é inesquecível, um vento diferente, de quem está no alto, eu sei disso, a Mina também o sabe. Nós duas já moramos em um lugar bem mais para baixo, mas me acostumei com o frio dessa cidade. Acho que não vivo sem ele. Acho que a Mina também não.
Em nosso caminho percebi os ipês floridos e olhá-los é tão rosa, que me senti feliz. Fui caminhando e olhando para eles até que escureceu, e o vento ficou mais forte e senti frio. Então comecei o caminho de volta para casa. Eu e minha cachorra, como todos os dias, cheias de vento, descansadas da vida e coloridas de ipês.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

inspirada na Tulipa


"...você sacou a minha esquizofrenia e maneirou na condução..."
Tulipa Ruiz

uma mão e já quero seu corpo todo
não sei querer pouco
sou exagerada
quero atenção
quero beijo
quero você correndo atrás de mim
ciumento
desesperado
acorrentado
e vou criando um mundo
onde você rouba meu ar
e eu só respiro se você está
aí você sacou
e foi embora
mundo cai
mundo vai
e nada existe mais

sábado, 9 de abril de 2011

massacre na escola

menino menina a aula começa
não faça barulho
senão a professora estressa
mas o barulho vem de fora
tiros? abaixe a cabeça

eu aponto meu lápis
tu apontas o teu
ele aponta uma arma
nós apontamos o céu
vós apontais o massacre
eles descobrem nosso véu

o véu da inocência rasgado e com sangue
professor me proteja
sou pequeno pra morrer
ciências geografia biologia história
português e para quê?
se na hora da verdade pra viver tem que correr

bala certa bala maldita
em escola
só pode ser bala chita
mas não é
não é doce
é lembrança infinita

quinta-feira, 7 de abril de 2011

sem título


tristeza tem hora marcada
dói meu peito respiro fundo
e finjo que aguento
eu finjo que não sei o que acontece
e se alguém me diz que estou carente
encho os olhos de água
tenho pena de envelhecer
eu ficava bem de jovem
e finjo que aguento ser forte ser mãe mulher
finjo que sei resolver
finjo responsabilidade faço cara de tragédia
e no palco me lasco toda
porque comigo
a tristeza tem hora marcada
dou aulas de literatura o dia todo
falo de amor solidão e muita dor
e me fica faltando muito
falta abraço falta amor sobra dor
porque comigo
comigo a tristeza tem hora marcada
eu não sei ser feliz com o que tenho
eu fico querendo voltar um pouco e me perder
eu fico querendo me entregar
eu fico esperando seu rosto tocar no meu rosto
eu fico esperando sorrir pra você
e quando chega passa tão rápido
que eu acabo acreditando
que a tristeza
tem sim
comigo
hora marcada.

sábado, 12 de março de 2011

tudo leva


Uma onda leva tudo
leva gente
leva casas
leva planos
o vento também leva
leva as folhas
leva um jardim inteiro
leva sonhos
a chuva leva muito
leva telhados
leva asfalto
leva cães desesperados
parece que antes a onda só era leve
parece que o vento só era fresco
parece que a chuva só molhava
será que tudo mudou?
ou foi a tv internet etc e tal
que deixaram portas e janelas abertas
e a tempestade agora nos chega
tão concreta?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

eu não sou minha

preciso de muro
que me pare na hora em que
de ansiosa me entrego no escuro

preciso de chão
que me sustente o sonho na hora em que
um poço se abre e cresce na contramão

preciso de água
que me salve a pele na hora em que
o sol me arde a alma

preciso levantar o muro, cimentar o chão, e um balde d'água
são poucas as coisas para que eu fique longe de uma ilusão

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Damas


Jogo "damas" com minha filha
na mesa da cozinha comendo geleia de morango
silêncio pensando
e de repente estamos rindo das bobagens
e perder é engraçado
porque entre nós não há disputa
Esse jogo tão simples e gostoso entre nós
era o mesmo
há tanto anos, eu e minha mãe jogávamos
o olhar era o mesmo
o silêncio entre as jogadas
o riso entrecortando a seriedade
tudo é tão igual
imito minha mãe quando olho minha filha
imito minha mãe quando finjo a seriedade do jogo
e dou uma ajuda pra minha filha ganhar
imito minha mãe quando sinto tanto amor
que dói no peito
imito a minha mãe o dia inteiro
pra ser mãe e mulher
imito minha mãe pra ser gente
pra ser grande
forte
bela.